Os Cátaros: O “Neomaniqueísmo” Medieval 

Há algo de fascinante e perturbador em revisitar os cátaros, esses “puros” (do grego katharoi) que, entre os séculos XII e XIII, ressuscitaram o maniqueísmo sob uma forma nova e medieval. Foram chamados de albigenses (pela cidade de Albi, na Occitânia francesa), bougres (de “búlgaros”, por sua origem nos bogomilos dos Bálcãs) e paterinos (na Itália setentrional). Mas, mais que nomes, herdaram um antigo espectro teológico: a convicção de que o mundo é o campo de batalha entre duas forças absolutas, o Bem e o Mal.

Não eram simples repetidores de Mani: reinterpretaram seu dualismo à luz da Europa feudal. Uniram o ascetismo extremo à rejeição da carne, o desprezo pelos sacramentos ao antissacerdotalismo, e envolveram tudo numa linguagem mística que chegou até os trovadores, onde o “amor cortês” ganhava contornos de luz espiritual e purificação interior. Essa fusão de teologia, ética e estética fez dos cátaros uma ameaça real à cristandade não apenas doutrinária, mas cultural.

I. Origem e Transmissão: Da Rota da Seda à Europa Feudal

O maniqueísmo não morreu, ele apenas se metamorfoseou.

Dos desertos persas e das cidades da Ásia Central, sua doutrina percorreu a Rota da Seda até alcançar o cristianismo bizantino. No século X, surgem os bogomilos, na Bulgária: discípulos indiretos dos missionários maniqueus da Armênia (os paulicianos, deportados por Bizâncio em 872). Pregavam dois deuses, um bom, criador do Novo Testamento, e outro mau, autor do Antigo, identificado ao Demiurgo.

Por meio das rotas comerciais e das cruzadas, suas ideias penetraram o Ocidente. Já em 1022, em Orléans, treze “hereges” foram queimados por propagarem doutrinas dualistas. Em Milão (1028) e Toulouse (1140), a heresia floresceu, encontrando terreno fértil na Occitânia. No século XII, os cátaros formavam uma Igreja paralela, com bispos próprios, como o célebre Nicetas, “papa” bogomilo ordenado em Albi (1167). Calcula-se que entre 10% e 20% da população occitana simpatizasse com o movimento.

Curiosamente, fragmentos maniqueus em língua sogdiana, encontrados em Turfan (China), foram traduzidos para o latim medieval por intermédio de missionários mongóis. Esses textos tornariam séculos depois nas formulações cátaras, revelando uma insólita ponte entre o Oriente gnóstico e o Ocidente cristão.

A influência de Mani é evidente: rejeição da matéria, desprezo pelo casamento, considerado fornicação e ódio à procriação, vista como armadilha demoníaca que “aprisionava a luz” em novos corpos. Os Perfeitos alimentavam-se apenas de vegetais e peixe, “criatura fria”, acreditando libertar a centelha divina das substâncias. O Antigo Testamento era tido como obra de Satã, e Yahweh, o Demiurgo mau, reminiscência direta do marcionismo e do maniqueísmo oriental.

A Eucaristia era rejeitada: pão e vinho, sendo matérias, não poderiam conter o divino. Substituíam-na por uma oração diária do Pater Noster e pela bênção de um pão comum, um símbolo sem sacramento. Criaram uma hierarquia espelhada à católica: Perfeitos (os “santos vivos”, considerados espiritualmente andróginos e dotados do poder de perdoar pecados) e Crentes (leigos que só recebiam o consolamentum na hora da morte, como um “seguro espiritual” contra a reencarnação).

A Igreja reagiu firmemente. O Concílio de Latrão IV (1215) reafirmou a bondade da criação divina (“Unus Deus, bona creatio”) e a realidade da Encarnação e da Eucaristia. O Catecismo da Igreja Católica (n. 285) condena explicitamente o dualismo como “erro que fere o coração da fé cristã”. São Bernardo de Claraval, ao denunciá-los em 1145, foi mordaz: “Comem ervas como animais, mas uivam como lobos.”

III. Ascetismo Grotesco e o Fanatismo Antissacerdotal

Os Perfeitos vestiam-se de negro, sinal de luto pela criação e jejuavam três vezes por semana (segunda, quarta e sexta), em eco aos antigos maniqueus da Pérsia. Viajavam sempre em pares, imitando os apóstolos, e permitiam que mulheres pregassem, um escândalo para a ortodoxia medieval, mas coerente com a rejeição da hierarquia eclesiástica.

A prática mais sinistra era a endura: após receber o consolamentum, muitos praticavam jejum até a morte, acreditando libertar definitivamente a alma da matéria. Há registros de comunidades inteiras que se suicidaram coletivamente. Em 1208, o líder Guilhabert de Castres teria ordenado duzentas mortes por inanição.

Seus rituais lembravam uma paródia da liturgia: o melhoramentum (saudação ajoelhada aos Perfeitos) substituía a confissão e a absolvição; o aparelhament (espécie de confissão mensal) substituía o sacramento da penitência. A Bíblia, mutilada, restringia-se ao Novo Testamento e às cartas de São Paulo, reinterpretadas em chave dualista.

Em sociedade, eram abertamente antissacerdotais. Rejeitavam juramentos, gesto subversivo numa ordem feudal baseada na palavra dada e pregavam contra impostos e guerras. Atraíram assim senhores occitanos, como Raimundo VI de Toulouse, que os protegeram mais por conveniência política do que por fé.

Mas sob o verniz de “paz” e “pureza”, o movimento escondia contradições brutais: os Perfeitos pregavam o não matar, mas deixavam os Crentes lutar por eles. Na Cruzada Albigense, muitos cátaros empunharam armas e defenderam seus castelos. O famoso “Matem todos, Deus reconhecerá os seus”, atribuído ao legado papal Arnaud Amaury,  ilustra o horror das guerras civis, mas não absolve a ferocidade das seitas que se suicidavam ou queimavam seus próprios escritos quando derrotadas.

Escavações modernas confirmam o fanatismo: em Minerve (1210), arqueólogos do CNRS encontraram um poço com ossos de 140 cátaros que morreram em jejum prolongado antes de serem lançados ao fogo. Um ascetismo que beirava o grotesco — a negação da carne levada ao paroxismo da autodestruição.

IV. Cruzada Interna e a Vitória da Fé

O florescimento cátaro atingiu o auge entre 1200 e 1210, com mais de mil vilas convertidas e cerca de 1.200 bispos. A resposta da Igreja foi espiritual antes de militar.

São Domingos de Gusmão, ao perceber que a pregação dos cátaros era mais convincente por seu aspecto austero, escolheu combater com as mesmas armas: pobreza, exemplo e palavra. Em 1215, funda a Ordem dos Pregadores, os Dominicanos, “os cães do Senhor” (Domini canes). Participou de debates públicos, como o de Montréal (1207), onde os cátaros, derrotados, queimaram seus próprios livros.

Mas quando o diálogo falhou, veio a guerra. Inocêncio III convocou a Cruzada Albigense (1209–1229), liderada por Simão de Montfort, que massacrou hereges em Béziers e Carcassonne. O Tratado de Paris (1229) pôs fim à rebelião, anexando o Languedoc à França. A Inquisição (1233), instituída por Gregório IX e confiada aos dominicanos, erradicou as últimas comunidades: Montségur caiu em 1244, quando 225 Perfeitos foram queimados vivos. O último cátaro conhecido, Guillaume Bélibaste, morreu na fogueira em 1321.

E no coração dessa cruzada espiritual, antes de se tornar guerra,  brilhou um evento que moldaria a história da devoção cristã:

A Aparição de Nossa Senhora do Rosário

Durante suas pregações na região de Toulouse, São Domingos enfrentava o desânimo: os corações pareciam endurecidos, e a heresia avançava. Em 1208, retirando-se em oração na floresta de Prouille, teve uma visão da Virgem Maria, que lhe entregou o Rosário como arma espiritual contra os hereges.

Segundo a tradição preservada por Alano de La Roche, Nossa Senhora lhe disse:

“Pregue o meu Rosário para converter o mundo; os corações se abrirão mais pela contemplação dos mistérios do meu Filho do que pela força da palavra.”

O Rosário tornou-se, assim, o instrumento de reconciliação interior de uma cristandade dilacerada. Enquanto os cátaros odiavam a carne, Maria, “cheia de graça”, confirmava que o Verbo se fez carne. Onde os “puros” rejeitavam a maternidade, a Mãe de Deus revelava a dignidade da criação.


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