A França em que Victor Hugo escreve Os Miseráveis é uma nação ainda marcada por uma antiga ferida espiritual: o rigorismo jansenista. Embora o jansenismo tenha sido oficialmente condenado e o célebre Mosteiro de Port-Royal destruído no século XVII por ordem de Luís XIV, suas ideias e seu clima moral continuaram a infiltrar-se na cultura francesa por muito tempo. É nesse terreno espiritual endurecido, onde a culpa pesa mais do que a esperança e onde a lei se impõe acima da misericórdia, que nasce o universo moral do romance.
O jansenismo havia deixado cicatrizes profundas no coração religioso do país. Mesmo longe de Port-Royal, persistia a visão sombria de uma natureza humana corrompida, impotente, inclinada quase sempre ao mal. Esse olhar penetrava pregações, confissões e a mentalidade popular. A pastoral herdou um tom severo: pecadores eram vistos com desconfiança, a alegria espiritual parecia suspeita, a comunhão transformou-se em privilégio dos poucos considerados “dignos”, e a ideia de que muitos estavam provavelmente “reprovados” diante de Deus ecoava em diversas comunidades. Esse moralismo duro envenenou também o sistema jurídico, que punia pequenas falhas de maneira desproporcional, como se a sociedade estivesse dividida entre eleitos e condenados sem retorno.
É dessa atmosfera que surge Jean Valjean. Um homem que rouba um pão para alimentar uma criança faminta não recebe compreensão, mas dezenove anos de prisão. A sociedade parece ansiosa para selar sua condenação, como se um erro mínimo bastasse para revelar uma alma irremediavelmente perdida. Essa França que castiga Valjean é a mesma que durante séculos absorveu uma espiritualidade incapaz de acolher o pecador. Se o jansenismo afirmava que poucos recebem a graça, o sistema penal francês dos séculos XVIII e XIX vivia como se essa tese fosse incontestável.
Victor Hugo, porém, constrói um contraponto luminoso. O Bispo Myriel, o Monsenhor Bienvenu, aparece como a encarnação da misericórdia cristã, quase como uma resposta viva ao rigorismo jansenista. Ele não interroga o passado de Valjean, não o reduz à sua queda, não confunde justiça com vingança. Sua hospitalidade, o gesto de defendê-lo diante dos guardas e, sobretudo, o presente dos castiçais que se tornam símbolo de uma nova vida, representam a ruptura com séculos de espiritualidade marcada pelo medo. Em Myriel, Hugo devolve ao cristianismo francês o rosto terno do Evangelho: um Cristo que chama, restaura e confia.
Essa oposição emerge ainda mais claramente na figura de Javert. O inspetor encarna a mentalidade da lei sem compaixão, da ordem que não admite falhas, da crença implacável de que quem caiu uma vez está condenado para sempre. Para ele, Valjean não pode ter mudado; a conversão é impossível. Javert é mais que um agente do Estado, é a personificação literária de um moralismo endurecido, herdeiro distante do espírito jansenista. Em contraste, Valjean, transformado e purificado pela misericórdia, representa a graça que renova e cura.
Assim, Os Miseráveis pode ser lido como uma denúncia poética e contundente dos efeitos culturais de séculos de rigorismo religioso. Hugo não revisita debates teológicos, mas lhes responde com a força de uma narrativa que proclama que ninguém está definitivamente perdido. A lei sem misericórdia não salva; a graça, sim, transforma. É como se, por meio de suas personagens, Hugo devolvesse ao cristianismo francês aquilo que Port-Royal, com sua severidade, havia obscurecido: a certeza de que Deus não reserva sua graça a poucos, mas a derrama sobre todos os que se deixam alcançar.
A obra não nasce diretamente do jansenismo, mas nasce de uma sociedade que ainda respirava sua sombra. A genialidade de Victor Hugo está em mostrar que, mesmo nas trevas sociais, políticas e espirituais, a misericórdia pode reacender a dignidade humana. E ao narrar a história de Valjean, o autor oferece uma resposta literária a um país inteiro que precisava reaprender o Evangelho da compaixão.
As passagens em que Éponine e Azelma são entregues aos cuidados das religiosas refletem esse mesmo pano de fundo. Nelas, surge uma atmosfera pedagógica marcada pela dureza, pela disciplina quase mecânica e por uma moral fundada mais no controle do que no cuidado. A educação que recebem é rígida, fria, destituída de ternura, um cristianismo reduzido a normas, punições e humilhações. Embora Hugo não mencione explicitamente o jansenismo, a espiritualidade retratada nesses episódios ecoa claramente sua herança: a crença de que a disciplina severa purifica, de que a vontade deve ser dobrada, de que a vigilância constante é necessária porque o pecado espreita em cada fragilidade humana.
Esse ambiente espelha práticas educativas espalhadas pela França pós-Port-Royal, quando internatos, orfanatos e conventos absorveram uma pedagogia profundamente influenciada pela austeridade jansenista. Em vez de promover o florescimento humano ou facilitar o encontro pessoal com Deus, tais instituições se dedicavam a corrigir desvios, impor renúncias e exigir um ideal de santidade irrealizável. É nesse tipo de lugar que Éponine cresce: rodeada por preceitos rígidos, por uma moral de medo e por um sentimento persistente de indignidade. Nada ali recorda o acolhimento de Myriel; tudo reflete o rigor que Hugo denuncia silenciosamente ao longo da obra.
A ironia amarga dessas cenas reside justamente no contraste entre a intenção religiosa e o efeito produzido. Instituições destinadas a acolher transformam-se, na narrativa, em espaços de opressão moral. Não há lugar para alegria, espontaneidade ou afeto; há apenas disciplina sufocante, formadora de almas resignadas e não de corações esperançosos. Esse vazio espiritual retrata, de modo quase satírico, a crítica que Hugo dirige ao moralismo francês: um cristianismo que perdeu o coração misericordioso do Evangelho e preservou apenas sua casca austera.
É nesse solo estéril que Éponine é moldada. Sua infância, marcada por essa educação rígida e pelo abandono dos pais, explica parte de sua dureza, de sua baixa autoestima e de sua busca desesperada por amor. Hugo parece sugerir que quando a religião renuncia à misericórdia e se torna mera disciplina, o resultado não é santidade, mas sofrimento; não é conversão, mas desumanização.Assim, as cenas do mosteiro em Os Miseráveis revelam os resquícios persistentes de uma espiritualidade severa que a França carregou durante séculos, uma sombra longa que Port-Royal lançou sobre o país e que Victor Hugo, com sutileza, faz questão de expor como crítica e advertência.
